terça-feira, 7 de maio de 2013

Saudade

       autor: Da Costa e Silva

Saudade! Olhar de minha mãe rezando
e o pranto, lento, deslizando em fio...
Saudade! Amor da minha terra... O rio
cantigas de águas claras soluçando.

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Noites de junho... o caboré com frio,
ao luar, sobre o arvoredo, piando, piando...
E ao vento, as fôlhas lívidas cantando
a saudade imortal de um sol de estio.

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Saudade! Asa de dor do Pensamento!
Gemidos vãos de canaviais ao vento...
As mortalhas da névoa sôbre a serra...

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Saudade! O Parnaíba, - velho monge,
as barbas brancas alongando... e, ao longe,
o mugido dos bois da minha terra..."

obra: Sangue

sábado, 4 de maio de 2013

Minha Senhora

      autor: Torquato Neto
Minha senhora
Onde é que você mora?
Em que parte desse mundo?
Em que cidade escondida?
Dizei-me, que sem demora
Lá também quero morar
Onde fica essa morada?
Em que reino, qual parada?
Dizei-me por qual estrada
É que eu devo caminhar
Minha senhora
Onde é que você mora?
Venho da beira da praia
Tantas prendas que eu lhe trago
Pulseira, sandália e saia
Sem saber como entregar
Quero chegar sem demora
Nesta cidade encantada
Dizei-me logo, senhora
Que essa chegança me agrada
Quero chegar sem demora
Nesta cidade encantada
Dizei-me logo, senhora
Que essa chegança me agrada

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Cogito

        autor: Torquato Neto

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora
eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim

quinta-feira, 2 de maio de 2013

O Antinarciso

               autor: H. Dobal   
 Narciso Teixeira doi um homem que um dia se aborreceu com a sua própria imagem. Era comunista, corcunda, franzino. Tipógrafo e jornalista, mais tipógrafo do que jornalista, tinha instalado a tipografia e a família numa rua sossegada no centro da cidade, num tempo em que todas as ruas eram sossegadas naquela cidade. Mais tarde, quando as lojas e os escritórios foram expulsando as famílias daquela rua, ele mudou-se para uma cidade grande e de lá jamais regressou.
     Sabe-se, no entanto, que continuou fiel aos seus propósitos até o fim. Nem uma só vez recuou no que tão rigorosamente tinha imposto a si mesmo.
     Foram ao todo dezessete anos sem consultar os espelhos. Viveu sempre na companhia de outras pessoas. No entanto, jamais alguém o surpreendeu num momento de fraqueza, num abandono, por mais breve que fosse, daquilo que os outros consideravam um capricho inexplicável. E pelo que se conhecia dele, não era homem que esmorecesse na solidão, que, sozinho. tivesse um ato de indulgência consigo mesmo.
     Os longos anos curvado sobre os tipos de sua gráfica, compondo os jornaiszinhos ou os boletins de propaganda, deram-lhe a corcunda, que o começo de velhice foi acentuando cada vez mais.
     A deformidade, porém, não o tornava repulsivo. A sua feiúra não agredia ninguém e lhe assentava como um atributo natural, já que a beleza e o vigor sempre lhe tinham sido estranhos.
     Talvez o barbeiro, que lhe fazia a barba e lhe cortava o cabelo sob a goiabeira no quintal, tenha sido o primeiro a observar aquela anomalia. Porque Narciso passou a recusar discretamente o espelho que lhe era oferecido. Limitava-se a apalpar a cabeça e a nuca, num gesto rápido, ou passar as costas das mãos pelo rosto e pelo queixo, como se fizesse uma verificação sumária, dando-se por satisfeito.
     Para os outros, era espantoso viver numa casa onde se escondiam os espelhos. Mas a verdade é que ele nunca deu ordem expressa nesse sentido. A mulher sempre obediente e lhe advinhando as intenções, numa solicitude rabugenta, é que foi compreendendo aos poucos e tomando providências para não o desgostar.
     Nem espelhos, nem vidros, e depois nem mesmo a superfície polída de um móvel ou um brilho de metal que pudesse refletir a sua imagem.
     Doía-lhe ver-se repetido, ver repetida a sua imagem, que a natureza oferecia aos outros, mas que ele, teimoso até a mais completa obstinação, como se quizesse tornar-se estranho a si próprio, jamais contemplou de novo.
              obra: "Um homem particular"

quarta-feira, 1 de maio de 2013

O Adulto Incompleto

                   autor: H. Dobal
     Das alturas da noite volta o confuso ressoar de latidos.
     Acordo para os meus sonhos. Umalembrança antiga- os cães vadios que velavam nos arrabaldes- me traz de novo para a vida, para esta noite escura, cortada por palpitações.
     Sou um homem entre a infância e velhice, entre vigília e sono. Acorda em mim uma cidade vivida, onde os cães ladravam de madrugada. Acordo como transeunte numa cidade sem esquinas.
     Hoje vivo numa cidade sem ruas e não me sinto mais ligado a cidade nenhuma. A passagem do tempo tornou irreal a minha própria cidade. Voltei lá depois de muitos anos. Reconheci algumas casas, algumas árvores e os rios, que aparentemente  eram os mesmos. Mas no todo era uma cidade descaracterizada, invadida por estranhos. O burgo sonolento e amável se desmaterializou, mas continua intacto num lugar acessível da memória.
     Agora volto lá frequentemente em sonhos. Isto é bem claro: não é uma cidade desaparecida que volta para mim. Sou eu que volto para uma cidade que foi sendo rapidamente substituída e encontro ruas de onde todos desertaram. Até os estranhos desapareceram. Sumiram os seus cansados habitantes, de pele seca e descorada pelo calor.
     Volto àquela cidade e tudo me é de novo familiar. Ando sozinho pelas ruas vazias, na claridade insurportável de uma tarde de outubro. O sol, porém, não tem fogo, não queima nada.
     Os meus passos não ressoam no silêncio. Atravesso montes de folhas secas que não crepitam. Nada ressoa, nada se move, não há vento nas árvores. Não entro nas igrejas, no mercado, no cemitério. Há muito deixei de ser católico, não faço transações, me desliguei dos mortos.
     Me desliguei dos vivos. Os meus filhos cresceram: não preciso mais deles. Ouço a voz de minha mulher me censurando que eu não preciso de ninguém. E ela, como sempre, tinha razão. Não preciso de ninguém. Mas estou aqui neste verão pedindo o refrigério das sombras.
     Estou aqui de novo na luz insuportável dos outubros desta cidade e sinto frio onde o calor me oprimia. Estou sendo substituído por mim mesmo neste meu corpo que se desgasta.
    O silêncio é impenetrável. Perdeu-se todo rumor de vida. Até as antigas tempestades de trovões, que sacudiam a cidade, morrem agora sem descer do azul.
     Vejo-me: sou um adulto incompleto, continuo a crescer dentro desta cidade morta, que não me abandona.
             obra: Um homem particular